miércoles, noviembre 01, 2017

«¡Tantos poemas contemporáneos!», un poema de Álvaro de Campos en 1 de Noviembre de 1934

Escribía Álvaro de Campos un día como hoy, 1 de noviembre de 1934.


¡Tantos poemas contemporáneos!
–Tantos poetas absolutamente de hoy–
Interesante todo, interesantes todos…
Ah, pero todo es casi…
Todo es vestíbulo
y todo solo por escribir.
Ni arte,
ni ciencia
ni verdadera nostalgia…
Este miró bien el silencio de aquel ciprés…
Este vio bien el poniente por detrás del ciprés…
Este reparó bien en la emoción que todo aquello daría…
¿Pero después?
Ah, poetas míos, poetas míos, –¿y después?–
Lo peor viene siempre después…
Es que para decir es preciso pensar
–pensar con el segundo pensamiento–
Y ustedes, viejos míos, poetas y poemas.
solo piensan con la primaria rapidez del ansia –que es la de la pluma– 
Más vale el clásico seguro,
más vale el soneto constante,
más vale cualquier cosa, aunque sea mala,
que los alrededores inconstruídos de cualquier cosa buena…
«¡Tengo el alma mía!»
No, no tienes: tienes la sensación de ella.
¡Cuidado con la sensación!
Muchas veces es de los demás,
y muchas veces es nuestra
solo por el tonto accidente de sentirla nosotros… 
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
1-11-1934
Traducción de Carlos Ciro

Ricardo Fernández Pérez (Ricardo Ranz). Acuarela, 20 x 35 cm.
De la serie titulada "La última mirada de Fernando Pessoa"



Original portugués:
Tantos poemas contemporâneos! / Tantos poetas absolutamente de hoje — / Interessante tudo, interessantes todos... / Ah, mas é tudo quase... / É tudo vestíbulo / E tudo só para escrever. / Nem arte, / Nem sciencia / Nem verdadeira nostalgia... / Este olhou bem o silêncio desse cypreste... / Esse viu bem o poente por trás do cypreste... / Este reparou bem na emoção que tudo isso daria... / Mas depois?... / Ah, meus poetas, meus poemas — e depois? / O pior é sempre o depois... / É que para dizer é preciso pensar — / Pensar com o segundo pensamento — / E vocês meus velhos, poetas e poemas, / Pensam só com a rapidez primária da ancia — é a da pena — // Mais vale o clássico seguro. / Mais vale o soneto contente. / Mais vale qualquer coisa, ainda que má, / Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa... / "Tenho a minha alma!" / Não, não tens: tens a sensação dela. / Cuidado com a sensação. / Muitas vezes é dos outros, / E muitas vezes é nossa / Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...